Sindireceita tem “Vitória de Pirro”, diz Tales Queiroz.

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A Vitória de Pirro

O rei Pirro, ao vencer os romanos em 279 A.C., e ser cumprimentado por um aliado, cunhou a famosa expressão utilizada para sintetizar “vitórias” obtidas com prejuízos irreparáveis: “uma outra vitória como esta e estaremos completamente arruinados“. A batalha de Ásculo custou tantas vidas que impedia a renovação de seu exército, contudo os romanos derrotados não sofriam com o mesmo problema.

A “vitória” obtida nesta última AGNU pela atual Diretoria Executiva Nacional do Sindireceita é um grande exemplo de uma vitória de Pirro.

Os Analistas-Tributários da Receita Federal do Brasil em agosto de 2012, época da denominada “negociação salarial”, que também poderia ser chamada de “imposição salarial”, gritaram um rotundo “NÃO” a ridícula proposta feita pelo Governo Federal (5% em 2013, 5% em 2014 e 5% em 2015) à maioria dos servidores públicos federais, demonstrando sua intenção de lutar e conquistar a justa reestruturação salarial.

Acontece que a DEN queria a aprovação da proposta de 15%, mas se absteve de expressar o seu desejo e deixou que a base decidisse sem indicar explicitamente a sua verdadeira aspiração, o caminho mais fácil, expressa nas entrelinhas da avaliação de conjuntura divulgada.

Publicou-se, então, a famosa “carta dos dissidentes da DEN” defendendo o “NÃO”. Neste momento surgiu uma polarização que se robusteceu e que beirava a insanidade: O “SIM” passou a representar a base aliada à DEN e o “NÃO” o grupo dissidente e seus apoiadores. Isso se tornou patente na AGN de Natal.

A partir desta dicotomia, a racionalidade das discussões e a leitura de cenários importantes para ajudar a decidir tão relevante questão (aumento salarial) foram relegadas a um segundo plano. O que se percebeu nos mais diversos fóruns do Sindireceita foram defesas passionais e contaminadas pelas vindouras eleições. Era o povo do “SIM” contra o povo do “NÃO”. A guerra estava declarada!

A DEN inconformada com a decisão da ampla maioria da categoria pela rejeição da proposta governamental, interpretada como derrota, tendo reconhecido publicamente seu erro estratégico, submeteu à nova AGNU a mesma proposta, sem qualquer alteração que justificasse a consulta, claro, não sem antes fazer o dever de casa e colocar seus exércitos na rua, diferentemente da primeira votação.

A “surpresa” ficou pela constatação do aparecimento do propalado, secreto e estratégico “Plano B” da DEN, que de tão sigiloso se supunha algo como o projeto da CIA (EUA) denominado “Treadstone” da trilogia Bourne, do cinema, mas que nada mais era que a ressurreição do “Plano A”, ou seja, aceitar a indigna proposta de 15% em três anos.  E só! E não podia ser diferente!

A nova decisão da maioria do filiados é soberana, tem legitimidade e não se discute, apesar de ainda podermos manifestar discordância. Contudo, o que preocupa não é ter-se aprovado um aumento pífio que sequer cubra a inflação e distante da almejada reestruturação salarial.

Também não é o fato de passarmos quase quatro anos amordaçados e presos a uma camisa de força, nem tampouco perdermos momentos importantes de emplacarmos as nossas justas pretensões salariais, equiparação com os analistas do Ciclo de Gestão, mas os verdadeiros motivos que parte do 1/3 da base de Belém votou a favor do “SIM”.

Apenas para esclarecer, pela segunda vez os filiados de Belém rechaçaram veementemente essa proposta que avilta os servidores públicos, sendo que na primeira AGNU por unanimidade e na segunda por 2/3. E olha que foram lidos todos os manifestos da DEN sobre o assunto.

Narro com tristeza que muitos dos filiados que estiveram presentes na AGNU em Belém expressaram um sentimento derrotista ao se manifestarem a favor do “SIM”, não de apoio ao indicativo da DEN, ao contrário, mas pelo fato de não vislumbrarem uma perspectiva melhor do que a apresentada pelo Governo, pois perceberam que não havia construção alguma por parte de quem deveria liderar as lutas para alterar essa triste realidade, mesmo que fosse em um futuro próximo.

Constatou-se que outras categorias que lutaram, que foram para o embate, que demonstraram sua insatisfação com essa política dura contra os servidores públicos conseguiram algo além da proposta salarial de 15%. Sentaram-se à mesa de negociação com as autoridades do Governo e provavelmente devem ter algumas de suas reivindicações atendidas. Nós não tivemos nada!  Se conseguirmos algo mais não será por trabalho próprio, pois estaremos a reboque de outras categorias.

Eu, como delegado sindical do Sindireceita, defendi o “NÃO” por convicção, não por fazer parte do grupo “A” ou do grupo “B”, mas pensando no melhor para a nossa classe, por entender que a proposta do governo não atendia, nem de longe, os anseios da categoria e por acreditar que os anos vindouros seriam de possíveis melhores construções. Espero que a decisão levada a efeito pela DEN encontre respaldo na história e que a avaliação dos filiados de Belém esteja equivocada, pelo bem da categoria.

Vivemos em uma democracia e acatarei de cabeça erguida a decisão da maioria, pois estarei com a consciência tranquila do dever cumprido nesta questão que por longos anos se coloca uma pedra. Não há o que comemorar.

A DEN vence, mas perdem os Analistas-Tributários.

Tales Queiroz, Analista-Tributário da Receita Federal do Brasil.

Fonte: Cabresto Sem Nó

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